quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Fernandão "se encontra" e aposta na cultura tática para deixar de ser emergente


No cargo há duas semanas, Fernandão nem assinou contrato de técnico ainda
No cargo há duas semanas, Fernandão nem assinou contrato de técnico ainda
Fernandão trocou o telefone pela bola. Deixou de lado os empresários e retomou a rotina com os zagueiros, meias e atacantes. No campo. O alívio dele é visível ao falar da saída da função de diretor-técnico para ocupar o posto de treinador. Com menos de duas semanas no novo cargo, o ex-capitão do Colorado nem sequer mudou o contrato ainda. Segue vinculado como dirigente. Mas aposta na bagagem tática adquirida na França para emplacar na casamata.

 DE VOLTA AO HABITAT NATURAL: O CAMPO

  • Fernandão ficou um ano como diretor-técnico, cargo criado após a demissão de Paulo Roberto Falcão; tarefas adminstrativas o incomodavam: "Estava virado em um burocrata, só no escritório".
“Eu não mudei o contrato ainda. O Luciano [Davi, vice de futebol] me falou que é preciso mudar. Mas eu não fiz”, conta. “Sei que vou ter que provar mais do que qualquer outro que estivesse aqui neste cargo. Por estar começando, por ser um emergente e ser aquela incógnita. E sei que a coisa mais importante é o vestiário", completa.
Em entrevista ao UOL Esporte, Fernandão relata ter se sentido mais leve por deixar o gabinete e a rotina ligada aos emails e contratos. Por ter recuperado o convívio com a família e escapado de um mundo que abraçou dias depois de pendurar as chuteiras.
“A função que eu fazia, na verdade, não era futebol. É uma questão completamente administrativa, para administrador. O cara que gosta de tática, que gosta de campo, que é entusiasta, não consegue ficar ali. Eu acredito muito em tática no futebol, quero estar no campo. E agora eu recuperei o prazer de estar no futebol”, comenta.
Entre o convite para se transformar em técnico, a demissão de Dorival Júnior e o sim, Fernandão buscou conselho em todos os cantos. Falou com ex-treinadores, parentes, amigos e até o antigo chefe que ficou como desafeto por meses: Fernando Carvalho. O contato foi só o capítulo mais recente da reaproximação da dupla. Definida no aniversário do ex-presidente no ano passado.
Confira abaixo a entrevista completa.
UOL Esporte: O que mudou na rotina do Fernandão fora do gramado, dos treinos e dos jogos desde que se tornou técnico?
Fernandão: Mudou 100%, mesmo em uma semana e pouco. Voltei para casa, almocei com a família como não fazia há mais de um ano. E isso eu sabia, como treinador, teria esse convívio com a família de novo. A vida do treinador é mais complicada que a do diretor, mas eu ganho o dia a dia com minha família. Quando aceitei o convite para ser diretor, imaginava uma situação completamente diferente. Fui me adequando em um ano a uma nova vida. Uma vida burocrática. Ficar no escritório, em reuniões e ao telefone. E tomando decisões longe do campo. E o que eu imaginava antes era ficar perto do campo. Ficar perto de uma comissão técnica, dos jogadores. E a burocracia que existe é imensa. Você fica trancado em uma sala respondendo email e tratando de negociações.
UOL Esporte: Nesta nova função, Fernandão, qual ponto que vem sendo o mais difícil, aquele que está exigindo mais atenção ou cuidado?
Fernandão: É eu mesmo. Eu sei que vou ter que provar mais do que qualquer outro que estivesse aqui hoje, agora, no cargo. Por estar começando, por ser um emergente e ser aquela incógnita ainda. Os resultados que vou ter qualquer um poderia ter, até pior, mas com pressão ainda menor. Essa responsabilidade eu sei. Não vou reclamar do tempo, tenho é que aproveitar ele para tentar implantar algumas coisas que penso de futebol. Tenho uma semana, mas não posso matar os caras treinando. Eu gosto de trabalhar é intensidade e não volume. E começar a organizar a equipe. E isso você faz de trás para frente.
  • "Eu acredito muito em tática no futebol e aprendi muita coisa jogando na França. Na Europa se trabalha taticamente todos os dias, mas aqui não. O Brasil leva tudo para o lado do talento individual"
    É fácil perceber que você é um entusiasta tático. Muito pela forma como explica, didaticamente. Isso vem de onde, de quem?
Eu tenho uma cabeça grande para lembrar de muitas coisas [risos]. Eu aprendi muito na Europa [jogou pelo Olympique de Marseille e Toulouse, na França]. Aprendi muito de posicionamento, movimentação. Percebi que se o time se movimenta de uma maneira organizada, você consegue cobrir todos os setores e marcar melhor. Aprendi lá fora e não vou conseguir colocar isso nem em um mês só para treinar. Quando você está defendendo, na verdade, está defendndo um gol. Que está no retângulo. Então não adianta se defender aberto. Você deixa os zagueiros expostos assim e aí surgem as críticas ‘o zagueiro tal não presta’. Quando você fecha a grande área, você tem quatro alinhados no meio ali. Aí você cria uma proteção. Fizemos isso em treinos na Europa com quatro blocos de 10 minutos. Só levamos um gol. E mesmo assim em uma vacilada, uma movimentação errada. Você consegue marcar 10 com sete bem posicionados. Eu sou entusiasta por isso. Na Europa se trabalha taticamente todos os dias. Todos. Aqui não, inclusive na base. Lá o jogador vai para desenvolver a técnica e ganhar jogo. Aí ele chega no profissional com conhecimento de tática muito baixo. E na Europa um menino de 12 ou 13 anos já tem conhecimento tático. O grande problema é esse. O basquete tem tática. No handebol tem tática, no vôlei também. No Brasil levamos para o lado do talento individual e não para a tática.
UOL Esporte: Mesmo com essa contingência que te levou para o cargo, você encara essa carreira como sendo definitiva ou daqui a pouco vai até janeiro e repensa?
Cada caminho escolhido não tem volta, para mim. Para mim, é um caminho sem volta. Aceitei um conveite para ser diretor, passei um ano no cargo e muito de aceitar a função de treinador vem disso. Passei um ano almoçando só 10 vezes em casa. Era uma função muito mais burocratica do que prazerosa.
É que um dos exemplos que você citou quando foi anunciado, o Leonardo, foi treinador do Milan, mas retornou para um cargo mais administrativo recentemente. Agora no PSG. Essa ideia, de retoceder, você não tem mesmo?

DIRIGENTE NUNCA MAIS

Para mim, é um caminho sem volta. Se amanhã vou sair do Inter e ter outra chance, o mercado é que vai dizer
Fernandão ao falar da transição de diretor-técnico para treinador do Internacional
Acho que agora é o caminho. O caminha natural para mim. Talvez fosse o caminho lá aos 40 anos. Aproveitei a oportunidade agora. Se amanhã vou sair do Inter e ter outra chance, o mercado é que vai dizer. Mas eu encerrei a carreira, veio uma oportunidade e aceitei. Eu não sei como será o caminho daqui para frente. Pode aparecer outra porta e me levar para outra situação. Mas os caminhos que deixo para trás eu sei que não volto. Não volto para ser jogador e nem para ser diretor, nos moldes que eu estava. Sei que não volto mais.
UOL Esporte: Nesta parte burocrática, que você quer tanto evitar, tem uma dúvida. Como ficou o contrato, a relação empregatícia com o Inter. Você continua com o contrato de diretor ou já assinou como técnico?
Fernandão: Eu não mudei o contrato ainda. O Luciano [Davi, vice de futebol] me falou que é preciso mudar. Mas eu não fiz. Não me preocupo também. Acho que a pessoa tem que ter prazer, isso é o mais importante. E voltei a ter prazer de estar no meio do futebol. Estou no campo, vivenciando isso. Vendo jogo e me preocupando com o que me preocupava antes. Antes eu não estava preocupado com nada disso. Tinha reuniões das 8h até 21h. E se tivesse um assunto extra, tinha que ir para a casa do presidente. Do vice. E tomando decisão às 23h. Na verdade, não era futebol. É uma questão completamente administrativa, para administrador. O cara que gosta de tática, que gosta de campo, que é entusiasta, não consegue ficar ali. Eu acredito muito em tática no futebol. Algo que o Abel Braga fez no jogo contra o Barcelona, por exemplo.
E por falar em Abel, ele ligou para você desde que houve a mudança de cargo aqui no Inter?
Me ligou, me ligou. Desejou sorte e deu parabéns. Ele foi uma das pessoas para quem eu liguei na quinta à noite, antes de decidir. Perguntei o que ele achava. Ele me disse para não ir pelo o que os outros pensavam. Me disse que eu tinha condições. Que deveria aceitar se realmente quisesse.
Ele chegou a dizer que está aberto para quando você precisa de algum conselho ou agora virou adversário mesmo?
Ele não precisa dizer, ele sabe que sempre que acontecer algo vou ligar. A primeira coisa que ele me disse era algo que eu já sabia. Aliás, aprendi com ele aqui: vestiário. O vestiário é a coisa mais importante do futebol. Se tiver ele na mão, pode tentar inventar tudo. Todos vão comprar a ideia. Se não tiver na mão, o cara que entrar já vai entrar não entra tão feliz por saber que vai sair ali na frente. O que saiu antes fica emburrado. Então, a primeira coisa que ele me falou foi isso.
Isso nunca foi problema para você...
Fernandão: [Pausa] Sim, mas muda a função. De capitão e atleta para treinador. Antes você tentava organizar o time dentro das tomadas de decisão do treinador. Agora a decisão de toda sua, tudo com você. E tem uma coisa que aprendi com um atleta que gosto, típico de gente que quer vencer, que é: você precisa ser honesto com o jogador. Não adianta você, como se diz na gíria do futebol, dar bala juca para o jogador. Dizer que daqui duas semanas ele vai entrar no time. Ou falar que está tirando ele da equipe por estar mal da cabeça. Não, não. Tem que dizer: 'velho, vou te tirar e a oportunidade é do outro. E espero que tu respeite ele assim como ele te respeitou'. E olhar no olho do cara. Você olhando no olho do cara, acho que você não dá a possibilidade dele falar algo depois. E dá a liberdade para ele fazer o mesmo. É a primeira coisa que acredito.
UOL Esporte: O Abel ligou desejando boa sorte. O Luciano Davi convidou para o cargo. E o Fernando Carvalho, procurou você desde a troca?

    CANETA SELOU A PAZ ENTRE A DUPLA

  • Fernandão garante ter bom relacionamento com Fernando Carvalho; Dupla teve atrito após tentativa de volta ao Inter em 2009; ex-jogador deu caneta de presente e brincou com cartola para selar a paz
Fernandão: Ligou. Eu converso direto com o Fernando. O tempo cura até queijo, cara. A gente já tinha se acertado no passado. Fiquei chateado durante seis meses. Fiquei mal na época, eu não me imaginava vestindo outra camisa. Mas depois disso, o tempo passou. Em 2011 nós nos falamos. Temos amigos em comum. O Novelletto [presidente da Federação Gaúcha de Futebol] fez a ponte. Quando sai do São Paulo e decidi encerrar a carreira, três dias depois que voltei para Goiânia, o Novelletto me ligou. Eu iria ficar um tempo em casa. Ele me perguntou para onde iria e falei que ia parar. O Chico me disse para continuar, mas repeti que iria parar. Dez dias depois, falei para o Chico que tinha tomado a decisão. Que estava vivendo coisas que não fazia desde os 12 anos. Sair para viajar na sexta e voltar só domingo. Ir pescar, buscar os filhos no colégio. Ele disse para eu visitar ele aqui em Porto Alegre. Neste meio tempo, o Novelletto fez a ponte com o Fernando. Nos falamos duas ou três vezes por telefone. Pode transparecer hipocrisia, mas não guardo rancor de ninguém.
Mas nestes contatos você falaram por cima do episódio de 2009 ou nem tocaram no assunto?
No aniversário dele em 2011, eu já estava aqui como diretor, fui convidado. Eu não sei a idade que ele fez. Mas eu fui na festa dele, na casa dele. E levei uma caneta de presente. Uma caneta. Quando ele foi abrir o presente, eu falei: 'me desculpa, presidente. Eu queria ter comprado um telefone que pegue no Japão de presente. Mas não consegui achar. Então vai a caneta' [Em 2009, então no cargo de vice-presidente de futebol, Fernando Carvalho fez contato com Fernandão apenas por e-mail. Alegando que estava no Japão e não tinha conseguido telefonar. O ato gerou desconforto entre os dois e o então jogador acabou indo para o Goiás. Se sentindo desprestigiado pelo dirigente]. Ali ele, de frente para a caneta, deu uma risada imensa. E eu fiz isso para simbolizar que não existe mais nada, passou. Que não existe situação nenhuma entre eu e ele. É uma pessoa que eu continuo admirando. Obviamente fiquei chateado na época. Mas passou e admiração voltou, voltou 100%. E acho ele uma baita pessoa, um baita dirigente. Uma pessoa fantástica. Honesta, competente. Em determinado momento as coisas não aconteceram, mas aquela festa quis mostrar que estava superado. Já tínhamos falado antes, mas quis mostrar isso. Liguei para ele na quinta, antes de aceitar o cargo. E ele me disse para aceitar. Está tudo superado.
Fonte: Uol
Erly Souza

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